OPINIÃO PESSOAL
Abuso de uns, omissão de outros

* Por Por Percival Puggina

Quase ninguém gosta de ser avaliado. Há quem fuja até de exames médicos imprescindíveis. Estudantes detestam provas. Se você quer ver um sindicato de professores rodando a baiana basta sugerir uma avaliação sistemática da qualidade do ensino. No setor público, criam-se Planos de Cargos e Salários para carreiras que utilizam formulários de avaliação periódica, mas não se tem notícia de que alguém tenha sido demitido por incompetência. Aceita-se de bom grado prêmio por elevado desempenho, contanto que não haja punição ao mau desempenho e não se sustem os progressos automáticos nas carreiras.

Em 1996, foi instituído o Provão, com o objetivo tornar conhecido o nível e estimular a qualificação das instituições de ensino superior do país através de provas aplicadas a seus alunos, por método de amostragem estatística. A coisa não funcionou devido ao boicote de estudantes e professores. Tratava-se, então, de intolerável medida em favor da competição, coisa de FHC, aquele neoliberal como se sabe. No governo Lula, o Provão foi substituído pelo Enade - Exame Nacional de Desempenho de Estudante. E então, malgrado protestos da UNE e de alguns professores, acabou sendo levado a sério e vem alcançando seus objetivos no estímulo à qualificação dos cursos superiores.

No último dia 9 de novembro foi realizado o exame de 2008. Uma das questões comuns a todos os cursos informava que os países da União Européia estavam sistematizando suas leis de proteção às mulheres. Em seguida, apresentava aos alunos alternativas sobre temas que, a seu juízo, deveriam estar necessariamente contidos nessa legislação. A alternativa considerada como certa era esta: “violência doméstica e aborto”.

O gestor público que aprovou o conteúdo dessa prova e o respectivo gabarito incorreu em incitação ao crime e estabeleceu, por outro lado, no ambiente acadêmico, o delito de opinião. De fato, dado que aborto é crime, determinar com a segurança de um gabarito oficial que o aborto é uma coisa boa para as mulheres, constitui estímulo ao cometimento desse mesmo crime. E, considerando que a questão tem conteúdo opinativo, discordar do que pensa a autoridade pública nessa matéria foi conduta punida com redução de nota no exame. Incitação ao crime e censura à opinião divergente.

Muitos abortistas são serpentinos e incansáveis na sua malignidade. Derrotados em votações no Congresso e em todas as pesquisas de opinião pública, colocam seu desejo de sangue inocente acima da democracia e do império da lei. A pergunta e a resposta têm, claramente, o intuito de impor opinião onde ela não cabe, dada a impossibilidade de vencer o debate onde ele pode e deve ser estabelecido. É lamentável que, decorrida uma semana do exame, nenhuma autoridade tenha intervindo no assunto, não apenas para anular a maliciosa questão, mas para responsabilizar quem a aprovou.

* Escritor.

 
“Luta contra pedágio continua
e tem adesão dos paranaenses”

* Por Luiz Cláudio Romanelli

Dezembro já está chegando e as concessionárias, sem qualquer tipo de escrúpulo, vão vir novamente com os pedidos de aumento do pedágio. Vão querer 8%, 9%, 10% de aumento e pleiteiam uma tarifa de R$ 12,50 para carro de passeio. Um verdadeiro absurdo. Um assalto ao bolso do paranaense. Eu repito reiteradamente: são R$ 6,5 bilhões arrecadados em 10 anos de pedágio e apenas 40 quilômetros de rodovias duplicados dos 2,5 mil pedagiados.

O Governo do Estado, através do DER (Departamento de Estradas de Rodagem), evidentemente, vai negar os pedidos das concessionárias. Essa é a nossa luta. A nossa, do lado do povo, barrando os abusivos aumentos e cobranças. As concessionárias, junto com a suas bancas de advogados, pleiteando os aumentos e, muitas vezes, os conseguindo na Justiça.

A luta não é de hoje. Sou um dos poucos deputados a votar contra a lei que implantou esse modelo perverso de pedágio no Paraná. Isso em dezembro de 1995. Os partidos que apoiaram Requião para governador na eleição em 1998, protocolaram durante a campanha um documento no qual, pode-se dizer, escreviam a história antes que ela acontecesse, taxando de puramente eleitoreira a diminuição das tarifas e vaticinando que elas voltariam a subir tão logo terminasse a campanha. Foi exatamente o que aconteceu.

Passados já quase seis anos do governo Requião, a luta se mantém, o que significa que o pedágio continua prejudicando os paranaenses. Mas, ela não tem sido inglória. Vencemos várias batalhas. Cito a decisão do Tribunal Regional Federal (TRF)- 4ª Região, em Porto Alegre - determinando o fechamento da praça de pedágio em Jacarezinho, no Norte Pioneiro, por estar situada no perímetro urbano.

Essa decisão, acredito, cria jurisprudência e para o fechamento de outras seis praças, em Arapongas, Jataizinho, Mandaguari, Porto Amazonas, São José dos Pinhais e Lapa, todas instaladas nos respectivos perímetros urbanos, dividindo os bairros e prejudicando os moradores. Essa posição é encampada pelo Fórum Popular contra o Pedágio.

No caso da praça da Lapa, situada na BR-476, a ação está na pauta de julgamento do TRF. Em dezembro de 2005, o juiz federal Friedmann Wendpap suspendeu a cobrança do pedágio naquela praça, atendendo a uma ação do Ministério Público Federal, que julgava ilegal a concessão de mais 83 quilômetros da rodovia à Caminhos do Paraná sem processo licitatório. Essa é apenas uma das muitas irregularidades permitidas pelos contratos do pedágio.

A situação em todos os municípios citados é semelhante à de Jacarezinho, mas há uma particularidade no caso da praça de São José dos Pinhais, na BR-277, explorada pela Ecovia. O juiz federal João Pedro Gebran Neto determinou que a concessionária cobre apenas uma tarifa poor mês dos moradores dos bairros Lavrinha e Olaria, que utilizam apenas um pequeno trecho da rodovia e, mesmo assim, eram obrigados a pagar a tarifa sempre que passavam pela praça.

O Fórum está incentivando os moradores dessas cidades a coletar assinaturas e entrar com ações na justiça. Ao mesmo tempo, o Paraná está sendo um exemplo para a luta contra o pedágio em outros estados. Já há ações semelhantes em Piuí (MG), Teresópolis (RJ), Botucatu (SP) e Porto Alegre (RS).

Por fim, o Fórum prepara um projeto de lei de iniciativa popular, para o qual pretende colher 1,6 milhão de assinaturas, estabelecendo uma série de condições para a cobrança de pedágio nas rodovias brasileiras: só poderá existir nas rodovias particulares, e não nas públicas; só poderá ser cobrado quando existir rodovia paralela, pública e gratuita; fica proibido no perímetro urbano das cidades; e ficam isentos caminhões que transportem alimentos, carros oficiais, ambulâncias e carros de emergência similares, além dos veículos emplacados na cidade onde se encontra a praça coletora.

Portanto, há vitórias. E o simples fato de essa luta continuar acesa mostra que ela é justa. Considero que nosso governo está cumprindo, e bem, seu compromisso. O pedágio, da forma como foi implantado no Paraná, caminha aceleradamente para seu próprio fim.

*Advogado e deputado estadual e vice-presidente do PMDB do Paraná.

 
Anjos do Cotidiano

* Por Adilson Luiz Gonçalves

Existem pessoas que são capazes de recitar obras-primas inteiras ou explicar cada frase ou pensamento dos grandes filósofos; mas, apesar da cultura e inteligência, que ostentam, são incapazes de expressar uma única frase sua, que sirva de conforte ao próximo, que às vezes nem reconhece como semelhante, em momentos de real fragilidade emocional.

De que adiantam discursos e sermões, plenos de impostação, citações e dialética, se vazios de sentimentos honestos e sinceros?

Mas também há pessoas capazes de entender o sofrimento dos outros e consolá-los, de esquecer um pouco de si próprias para solidarizar-se. Infelizmente, insensibilidade, alienação e submissão a valores impostos, impedem de reconhecermos essa benção, negando-lhes uma vida mais leve e feliz. Alguns confundem esse excesso de humanidade e altruísmo com fraqueza ou falta de ambição, da qual tiram proveito inescrupuloso.

Não é à toa que existem tantos santos, vítimas dos erros da humanidade. Eram todos humanos; sofreram pelas mãos dos que se sentiram incomodados, ameaçados ou atraídos de forma torpe pela sedução angelical de suas almas. Para canonizá-los é necessário um longo processo, mas às vezes basta olhar ao redor para constatar a presença de novos, entre nós, que com uma simples palavra são capazes de operar milagres anônimos. E tudo sem exigirem nada em troca!

Esses santos do cotidiano não se consideram diferentes e são naturalmente bons. Não fazem culto a si próprios, nem terão seus nomes registrados em ruas e praças; mas são pródigos em sua infinita capacidade de amar, mesmo que esse amor não seja correspondido.

Tenho a felicidade de conviver com algumas dessas pessoas. Muitas vezes sinto-me fascinado e indigno ao observar seus gestos, atitudes e palavras. Sinto-me abençoado por tê-las tão próximas e por ter a oportunidade de tentar retribuir um mínimo do enorme bem que me fazem, apenas por existirem.

Se não podemos servir-lhes de bálsamo e aconchego, que ao menos nosso egoísmo, arrogância, inveja, covardia, preconceitos, frivolidades, obsessões e culto às aparências não lhes sejam pedras no caminho. Quem sabe, assim, tenhamos menos santos mártires – vítimas da estupidez de seus semelhantes - e uma humanidade mais santa, onde a língua dos anjos e as dos seres humanos seja uma só: o esperanto do amor!

* Mestre em Educação

 

A sensibilidade do poeta

* Faustino Vicente

Consagrada como uma das sete artes tradicionais, a poesia tem no poeta o agente que faz da palavra a sua mais nobre matéria-prima. A verdade é que o poeta é muito mais que um sonhador ou vendedor de emoções e de paixões, mensageiro da nostalgia e da alegria, mas alguém que pode dar uma lição exemplar ao mais racional dos segmentos – o sistema financeiro internacional. Entre os escultores de versos, o nosso destaque vai para Paulinho da Viola, poeta, compositor e músico dos mais brilhantes do Brasil. Em Argumento, letra e música de sua autoria, vamos encontrar um alerta aos Governantes, à classe empresarial e à cada um de nós; “Faça como o velho marinheiro/que durante o nevoeiro/ toca o barco devagar”.

A maior potencia (EUA) econômica, financeira e bélica do planeta,com cerca de 25% do PIB mundial,vacila, balança e revela o seu “calcanhar-de-aquiles”. De Wall Street, epicentro da crise, partiu o mais furioso “tsunami financeiro” das últimas décadas que, em segundos, varreu o planeta levando pânico à todos os Ministros de Finanças. Instalada a incerteza, palavra detestada pelo mercado, a perspectiva é que os seis bilhões e seiscentos milhões de habitantes da terra terão que pagar a conta, pelo erro de gestão de alguns banqueiros. Socializar os prejuízos é humilhante, e ver o capitalismo sendo salvo pelo socialismo é intrigante.A tão cortejada globalização transformou o mundo dos negócios numa jogada de xadrez – movimenta-se uma única peça e mexe-se no jogo todo.

Com menor volume de dinheiro no mercado global, maior taxa de juros, seletividade rigorosa na concessão de empréstimos, redução de investimentos por parte das empresas, queda de consumo, menor PIB mundial, mais desemprego, lamentavelmente, haverá aumento da pobreza mundial. Reverter essa tendência é questão de competência. O crédito,que irriga o mundo dos negócios, está para o desenvolvimento (econômico e social) assim como o sangue está para o corpo humano. Nem as lições do passado, (1929/1930-EUA), o domínio das mais avançadas teorias econômicas, as incríveis descobertas científicas e o espetacular desenvolvimento tecnológico foram barragens eficazes para conter esse “tsunami financeiro”,provocado, irresponsavelmente, por falha humana.

O que nos deixa perplexo é saber que apesar do elevado grau de inteligência, formação acadêmica nas melhores universidades do mundo, longos anos de experiência e salários milionários, banqueiros norte-americanos tenham cometido esse gravíssimo erro de gestão. Essa ocorrência contrasta com os procedimentos da Diretoria de recursos humanos das grandes corporações,que exigem: capacitação técnica, conduta ética, competências ecléticas, visão sistêmica do negócio em que atuam,versatilidade,criatividade para reverter resultados negativos,gerenciamento interativo,entre outros. Num desses pré-requisitos os executivos falharam.

A intervenção do Estado (teoria keynesiana) levará os países a destinarem alguns (?) trilhões de dólares, para resgatar a confiança nos bancos e evitar a redução drástica do ciclo produtivo. Quais seriam os benefícios, para a população de baixa renda, se esse valor (astronômico) fosse investido em projetos sociais?

Erradicação da fome, que atinge mais de um bilhão de pessoas, geração de renda para milhões de desempregados, prestação de serviços públicos de elevada qualidade e a eliminação da mais aviltante das violências – a miséria.
A crise torna-se real quando sai do econômico e vai para o psicológico, deslocando-se da Bolsa de Valores para o bolso dos consumidores - a parte mais sensível do corpo humano. Encerramos com o pensamento do célebre prosador,político e orador romano, Cícero (106-43 a.C): “Vamos equilibrar o orçamento, proteger o tesouro, combater a usura e reduzir a burocracia. Caso contrário...afundaremos todos”.

* Consultor de Empresas e de Órgãos Públicos

 
O "x" da questão

* Por Adilson Luiz Gonçalves

Volta e meia, eu ouço discussões sobre quem exerce o papel mais importante em relação à perpetuação da espécie humana. Afinal, é o homem ou a mulher?

"O homem define o sexo!"... "Mas é a mulher que concebe e gesta!". "Os espermatozóides masculinos são mais rápidos!" ..."Mas, os femininos são mais resistentes!". "O homem tem o 'desbravador': o falo!" ... "Que, de vez em quando, não 'diz' nada...". "As mulheres ainda esperam o príncipe encantado!"... "Só estou vendo o cavalo...".

Francamente, não há muita lógica em definir quotas num relacionamento que, por princípio, subverte a matemática! Afinal, nesse caso, um mais um é igual a três, no mínimo. Mas, como todo o brasileiro entende de futebol e sexo, gostaria de expressar a minha opinião sobre o tema:

Inicialmente, a relação entre eles é, por princípio, sexual! Mas, para quem insiste em definir a posição exata de um e outro, posso afirmar que ela é absolutamente relativa. Afinal, ora se está por cima, ora por baixo, ora ao lado. Aliás, é possível visualizar a relação por qualquer ângulo ou perspectiva.

Não concluí nada?

Bem, para os que insistem dimensionar diferenças, podemos prosseguir a análise, lembrando que tudo depende da anatomia das partes envolvidas:

O tamanho da participação do homem pode ser maior ou menor. No caso da inseminação artificial, ela não passa de uma finíssima agulha de seringa. Mas, de um jeito ou de outro, é inegável que o homem entra com alguma coisa. Mas se o homem investe, é a mulher quem cuida da evolução do investimento. Alguns minutos de prazer, contra nove meses de um prodígio, que prossegue por toda a vida!

Ambigüidades à parte, a geração de um filho é um ato tão divino, e envolve tanta responsabilidade e compromisso, que não pode – e não deve – ser assumida sem doses maciças de carinho, amor e paixão, antes, durante e depois!

Não importa a quota orgânica ou genética que caiba a cada um no processo de geração. O que realmente vale é o como cuidaremos e educaremos esse novo ser vivo.

Quando partilhamos com uma segunda vida a possibilidade de gerar uma terceira, temos que estar prontos para assumir iguais quotas de comprometimento!

Não há dúvida de que o enjôo e a dor são femininos, mas é imprescindível compartilhar cada momento. O homem também precisa estar "grávido" e ambos precisarão aprender a ser pais e mães, conforme o momento.

Fazer filho? Qualquer um, biologicamente apto, faz! Mas assumir a paternidade e a maternidade, natural ou adotiva, isso, infelizmente, ainda é para poucos.

* Mestre em Educação

 

O empresariado e a crise

* Por Dirceu Cardoso Gonçalves

A fusão Itaú-Unibanco, além de gerar o maior banco brasileiro, superando até o oficial Banco do Brasil, que luta internamente para se safar das ingerências político-governamentais, deflagrou o saudável processo de modernização no setor financeiro. Outras instituições já se preparam para reagir à meganegociação dos Setubal e Moreira Salles, para também continuarem competitivas. E fazem isso diante dos bancos internacionais que já chegaram ao mercado local.

O processo - que deverá se estender também a outros setores da economia - segue a uma tendência mundial e demonstra a maturidade do empresariado nacional que, mesmo diante da crise mundial anunciada em prosa e verso e explicitada no comportamento do câmbio e das bolsas de valores, ousa empreender e modernizar seus negócios. Espera-se que o governo, cuja participação mais significativa na economia tem sido a cobrança de altos impostos e a prática de uma política de juros elevados, faça pelo menos a sua parte e conduza a política econômica oficial de forma a apoiar a iniciativa privada e a deixá-la trabalhar e cumprir sua vocação de alavancagem ao desenvolvimento nacional.

Com todas as dificuldades e incertezas econômicas pré e pós Real, o empresariado brasileiro nunca deixou de investir e fortalecer seus negócios. Desde a abolição da escravatura, há 130 anos, passando pela profissionalização da agricultura, instalação da indústria extrativista, de bens de consumo e de alta tecnologia, podemos identificar uma grande caminhada onde os brasileiros conseguiram inserir nosso país no mercado internacional. Hoje temos as mais importante construtoras atuando mundo afora, a indústria automobilística que disputa mercado com os tradicionais centros do ramo, a grande e controversa indústria energética (petróleo, etanol e biodiesel) e os nossos empresários do setor financeiro preparam-se para a grande arrancada internacional, movidos pelas oportunidades da globalização.

É comum dizer que o Brasil caminha para um grande futuro, independentemente de quem esteja no governo. A prática e o desencanto gerado por atitudes dos governantes e seus circundantes muitas vezes levam a esse raciocínio pessimista. A classe política precisa adotar medidas concretas para provar que essa "verdade popular" não chega a ser uma verdade.

Se, de um lado, temos uma importante economia gerada e administrada pelo mundo dos negócios, é bem verdade que possuímos uma dívida social astronômica com a própria população. Um país com todo esse desempenho econômico não pode continuar assistindo passivamente a seus cidadãos morrerem sem atendimento nas portas dos hospitais, escolares diplomados sem saber ler e escrever, o desemprego em altos níveis e a segurança pública perdendo terreno para o crime organizado.

Precisamos encontrar um meio de, também, fundir a competência e as virtudes do meio empresarial com a inoperância e a falta de ação do setor público para, dessa fusão, se possível, sacar a grande nação que sempre sonhamos.

* Diretor da Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo.

 

Desmascarando a Depressão

* Por J. Antonio Sespedes

Iniciando a reflexão é preciso ressaltar que, tristeza e sofrimento não devem ser confundidos com depressão, na verdade, estes sentimentos são intrínsecos a cada ser. Até Jesus teve seus momentos de dor, e como os teve...

O avanço da ciência na complexidade da vida equacionou problemas que em épocas passadas nem em sonho seria possível vislumbrar. O extraordinário desenvolvimento da indústria converte a necessidade em fonte de prazer, e para lubrificar as engrenagens do lucro, desenvolve mimos encantadores, porém, que nos condicionam, a ponto de cairmos na ilusão que a vida é um enorme shopping center onde tudo pode ser comprado, e que para todos os sintomas sempre haverá uma bula amiga. A lei de causa e efeito ficou obsoleta perante o modernismo e a superficialidade dos relacionamentos.Tendo o poder como pivô, a superioridade, quer no âmbito financeiro, intelectual , erudito, político e tudo que se possa imaginar, transforma o homem num deus arrogante e pretensioso, a se julgar acima do bem e do mal. Diante da prepotência vivenciada em nossos dias, entristecer, sofrer e se abater perante uma dificuldade, uma separação, ou outra causa humana é sinônimo de fraqueza e de fracasso, e ninguém quer assumir isso publicamente, afinal, o que importa é manter a risada nos lábios, mesmo quando as lágrimas encharcam o coração.

A cada instante, ondas negativas são emitidas em todos os níveis do comportamento e o resultado é desastroso. Traições, fraudes, calúnias, omissões, egoísmo, e todos os atos que causam os infortúnios e o sofrimento de muitos, e que em última instância recairá sobre seus autores. A infelicidade, aos poucos, necrosa a alma que morre em vida, abrindo um vazio, um nada... E aí vem a depressão.

Não serão os antidepressivos, tampouco, os livros, nem os psicanalistas ou então, consultando os milagreiros de plantão que o sujeito sairá dessa. Como o próprio nome já diz :a doença da alma, ela se processa na esfera espiritual, imaterial, onde as fórmulas humanas não têm acesso, conforme falou Einstein: “do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores; porque estes vêm de outra região” . A depressão é uma chaga que adoece o espírito e seu efeito contamina o físico. A cura está na depuração de tudo que for artificial e contrário à vida. É preciso também se libertar das crenças equivocadas, enraizadas no subconsciente, e saldar os débitos com a sociedade contraídos ao longo do percurso. Na prática, o indivíduo deverá ser realista e ter atitudes honestas para consigo e os demais, em outras palavras: tirar a máscara. Parar de esperar cair do céu a solução dos problemas. As reais causas da infelicidade, só poderão ser vencidas pela própria pessoa. Agindo dessa forma, a depressão será desmascarada, e toda orientação vinda de terceiros e a eficácia dos medicamentos, se necessários, cumprirão o papel de coadjuvantes.

* Autor do livro: Depressão, um beco com saída.

 

Bilhete aberto ao presidente da OAB

* Osmann de Oliveira - osmanndeoliveira@terra.com.br

Meu caro Doutor Alberto de Paula Machado. O bilhete é sempre uma forma familiar de comunicação. Dele se serviu Jânio Quadros e dele se utilizaram, também, outros Presidentes a, até, Imperadores. Sigo os exemplos para transmitir-lhe o seguinte: milhares de causídicos andam reclamando pelo modo desrespeitoso como vêm sendo tratados pelas autoridades. A gente conversa nos corredores do Fórum, nas salas e nas bibliotecas, com profissionais militantes e ouve de todos muitas queixas contra Juizes. É bem verdade que os magistrados têm de dedicar-se aos seus muitos afazeres. Despachar, sentenciar, presidir audiência, expedir mandados e supervisionar Cartórios, não são coisas fáceis, mas todos contam, hoje, com a colaboração de excelentes assessores e estagiários. Duro era á trinta anos, ao tempo de Alceste Ribas de Macedo, Joaquim Penido Monteiro, Lauro Fabrício de Melo Pinto, Ariel Ferreira do Amaral, José Pacheco Júnior e outros mais que não dispunham de funcionários e nem de locais adequados. Por exemplo o Fórum Cível era no edifício Demeterco, lá em cima, no último andar e o Fórum Criminal era na rua Mal. Floriano, na atual “Casa Rosada”, onde se encontram divisões do Ministério Público e, mais tarde, em acanhado imóvel da rua Visconde do Rio Branco, esquina com a rua Emiliano Perneta. Mas os juizes se davam bem com os advogados. A família forense era uma só. Agora, entretanto, as coisas mudaram. Parece que alguns prebostes, nome que se dava aos antigos magistrados castrenses por serem prepostos do soberano, reuniram-se alhures, numa espécie de conciliábulo secreto e saíram do encontro cheios de cismas e dispostos a impedir contactos com o mundo exterior. O Poder Judiciário não é confraria e nem os seus honrados membros pertencem a um monastério trapista e solitário. Evitam receber e falar com advogados deslembrados, apenas, de que estes, por imposição legal, são tão indispensáveis à Justiça, como eles próprios, conforme o artigo 2º., da Lei nº.8.906/94.

Não se entende, não se compreende, causa perplexidade o que se vê, o que se sente e o que se vive. Alguns causídicos, mesmo sabendo que você bem representa a instituição, perguntam aonde está a Ordem? Ás vezes isso, até, se justifica, independente de saber-se que a AOB que derrubou o arbítrio, sepultou a ditadura, edificou-se como uma espécie de muralha contra o arbítrio, sofre, na atualidade, os rigores daquilo que mais combateu: o desacato, o capricho e a violência de uns poucos contra o direito de muitos !

Meu sempre estimado Presidente, Alberto de Paula Machado, quase eu ia esquecendo um outro fato que ultraja, porque agride; injuria e ofende a dignidade da classe, é a submissão do advogado à revista física quando se dirigi a um dos estabelecimentos penais do Estado. Contrariando a lei na lei nem os presídios, nem as delegacias, nem os Fóruns, possuem salas para que os profissionais possam dialogar com os seus clientes. O muito que se permite é que o profissional converse com os seus constituintes através de gradis colocados estrategicamente no quadrante e sob as vistas de guardas armados e microfones imperceptíveis.

Essa cautela toda pode ser necessária a indivíduos que, talvez, não tenham sabido respeitar a nobre profissão, mas isso não deve ser generalizado. O advogado goza de prerrogativas decorrentes do serviço público que presta !

Aceite o meu abraço maior,

Osmann de Oliveira

 

É só assoprar...

* Por Elias Mattar Assad

Mozar Costa de Oliveira, doutor em direito pela USP e professor da PUC (Santos - SP) escreveu sobre "A validade constitucional das normas da lei 11.705, de 10/6/2008 - (in espaço acadêmico, www.abrac.adv.br). A razão do estudo, segundo o autor, nasceu pela polêmica de ser ou não havido como inconstitucional, ou ao menos como excessivamente rigoroso, o Código de Trânsito Brasileiro (L. 9.503, de 23 de setembro de 1997), no tocante às alterações trazidas pela "lei seca".

oncluiu o mestre que "não há a inconstitucionalidade..." e "o ato administrativo do exercício de polícia é inerente à função estatal a que todos, sendo ele exercido de acordo com a lei, têm de sujeitar-se para ser alcançado o bem público na realidade dos fatos humanos. A exigência feita pelo funcionário público competente a quem está a dirigir automóvel sob suspeita fundada em fatos, de estar sob o efeito de álcool ou substância de efeitos análogo s, é exercício de pretensão jurídica. A resistência a esta pretensão não é crime, mas é ilícito administrativo e prova indiciária de crime do trânsito. A nossa lei não pode qualificar-se sociologicamente como draconiana, ou juridicamente inconstitucional..."

Com base nesse trabalho publicado no site da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas, recebi correspondência (com pedido de preservação da identidade), onde o indignado e culto leitor assevera: "...Creio estarmos no raiar de uma grande revolução comportamental onde o povo, por seus representantes, está impondo sobriedade aos motoristas da nossa República. Todas as pessoas que exercem posições de relevo em nossa sociedade possuem carteira de habilitação. Assim, poderão surgir tragicômicas situações como um médico ser autuado no trânsito por acusação e marca do "bafômetro", e se descobrir posteriormente que saia ele de um hospital onde acabara de fazer uma cirurgia, com morte do paciente por erro médico. Entre milhares outros que a imaginação possa nos permitir, um jurado que acabou de participar de um julgamento criminal em que o réu foi condenado ou absolvido, com diferença de apenas um voto... O médico responderia por homicídio doloso eventual com relação a sua vítima na mesa de cirurgia? O júri seria anulado no outro exemplo?

Mais correto então, que adotássemos uma postura única onde a nova tecnologia do "bafômetro" se aplicasse indistintamente. Imaginemos como seria em um hospital onde todos os enfermeiros, médicos, pessoal técnico administrativo, antes de iniciarem suas atividades, fossem obrigados a soprar a maquininha... Que tal também, a mesma principiologia aplicada nas repartições públicas em geral, como quartéis, delegacias de polícia, câmaras de vereadores, assembléias legislativas, câmara dos deputados, senado, tribunais de contas, conselho de contribuintes, judiciário (todos os que nele atuam), executivo, religiões, iniciativa privada, nas escolas todas, inclusi ve ensino superior, etc. Registre-se que, estatutos de funcionalismo e a CLT de longa data contém previsão exigindo a sobriedade das pessoas por eles regidas, ou seja, se o problema residia no detalhe de que não se tinha como aferir com precisão, isto faz parte do passado... Vamos invocar as mesmas razões de segurança que inspiraram exigências de portas giratórias, com detectores de metais em vários recintos (inclusive judiciários), para sustentar o novo uso da miraculosa "maquininha", para aferir o grau de sobriedade das pessoas em seus trabalhos. É só assoprar..."

*Presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas.

 
Planejamento da sucessão
de lula já começou

* Por Antonio Carlos Pannunzio

A estrutura constitucional brasileira é bastante sofisticada. Nela, estados e municípios partilham a condição de entes constitutivos da União. Muito mais do que entidades administrativas, uns e outros têm suas competências e recursos definidos no texto da Constituição e são dotados de autonomia e auto-organização. Essas características reforçam a possibilidade de termos, nos níveis federal, estadual e municipal, arranjos político-partidários de poder e governabilidade não necessariamente coerentes entre si.

Por conta desses diferentes entendimentos, as atenções dos observadores políticos, neste momento, acham-se focadas no PMDB. Integrante da base governista no Congresso, o que não impede que suas bancadas na Câmara de Deputados e do Senado abriguem parlamentares que fazem oposição ao executivo, aquele partido utilizou com inegável competência a possibilidade de coligar-se, nas recentes eleições municipais ora com aliados, ora com adversários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com essa divisão das fichas partidárias em apostas favoráveis e contrárias ao governo federal, o PMDB elegeu prefeito do Rio de Janeiro o ex-deputado federal Eduardo Paes e vice-prefeita de São Paulo a engenheira Alda Marco Antônio.

O resultado alcançado na eleição carioca dificilmente pode ser apresentado como uma vitória do presidente da República, apesar do seu ostensivo apoio ao vencedor. É improvável que o relacionamento do chefe do governo com o prefeito eleito Eduardo Paes vá além da cordialidade formal. Na CPI dos Correios, o eleito, à época deputado federal pelo PSDB, foi um dos mais severos críticos do presidente. Quem emerge das urnas cariocas com perfil de grande vencedor é, na realidade, o governador Sérgio Cabral (PMDB) que, com os resultados obtidos, se credencia como nome a ser obrigatoriamente ouvido na definição do quadro político para 2010.

Em São Paulo, inversamente, o presidente sofreu sua principal derrota e esta deve render-lhe, ainda, farta colheita de dissabores. Isso fica patente em recentes manifestações do ex-governador Orestes Quércia. Artífice da costura de que resultou o apoio do PMDB ao prefeito reeleito Gilberto Kassab (DEM), Quércia disse, com todas as letras que não reivindica cargos para o seu partido na administração paulistana. A integração de peemedebistas à equipe de Kassab é algo a ser acertado exclusivamente entre o prefeito e os eventuais convidados. O interesse do ex-governador está focado em 2010. Ele defende o apoio do PMDB à candidatura do governador José Serra (PSDB) à presidente e opõe-se radicalmente a uma aliança com o PT. E acrescenta que, se a aliança com PT vier a consumar-se em nível nacional, a despeito de sua oposição, a seção paulista do partido não a acompanhará. Outra coligação de sucesso entre o PMDB e o PSDB, num dos pólos políticos de maior importância do país, ocorreu no segundo turno da eleição para a Prefeitura de Porto Alegre e resultou, igualmente, em inequívoca derrota do presidente Lula. O apoio da governadora Yeda Cruzius (PSDB) foi decisivo para assegurar a reeleição do prefeito José Fogaça (PMDB), que venceu tranquilamente a deputada federal Maria do Rosário (PT).

Esses dois episódios sinalizam que, em 2010, o PMDB terá no PSDB, e não no PT, seu melhor parceiro. Considerando-se o peso das bancadas no legislativo federal e o entrosamento alcançado pelos dois partidos, a aliança entre eles pode se revelar, ainda em 2009, a maneira mais eficiente de o PMDB fazer valer sua legítima pretensão de eleger o deputado federal Michel Temer (SP) como presidente da Câmara.

* Deputado federal pelo PSDB-SP e membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara.

 

Carta Brasil 2008 de Direitos Humanos

* Por Elias Mattar Assad

Entre os dias 21 e 26 de setembro últimos, no Parque Anhembi (SP), tive a honra de figurar como coordenador científico do "II Congresso Internacional de Direitos Humanos" e juntamente com José Gregori, Ricardo Castilho, Sérgio Resende de Barros, subscrevemos a "Carta Brasil 2008". Ei-la em síntese: "Talvez a maior afronta à humanidade seja a notícia, divulgada pela ONU no último dia 17 de setembro, de que o número de pessoas com fome no mundo, em um ano apenas, subiu em 75 milhões. Eram 850 milhões de famélicos em 2007, e agora são 925 milhões. São sete países com a população igual a de Portugal, que não têm o que comer. É quase um terço de um país como o Brasil, desnutrido e triste.

Alegadamente, grassa a fome por causa da disparada dos preços de alimentos, no mundo inteiro. É o que afirmou em Roma o diretor da FAO Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, Jacques Diouf. Mas engana-se o pesquisador. Cerca de um sexto da população mundial é privado do mais básico de todos os direitos, que é o da nutrição, porque as classes dirigentes desconhecem ou, pior, desprezam o sentido do termo humanidade. Apenas em 2006, conforme registros da OCDE Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, os países membros dessa organização investiram US$ 376 milhões no incentivo à agricultura, mas gastaram US$ 1,2 trilhão, ou três vezes mais, em armamentos. A prosseguir esse desrespeito histórico, sem investimento de no mínimo US$ 30 bilhões por ano para duplicarmos a produção de alimentos, seremos muito mais do que um bilhão de mortos de fome em 2050 (...). Sabemos que a pessoa bem nutrida adoece menos, aprende mais, posta-se de melhor maneira diante das opressões. Como dizia Aristóteles, que "onde as leis não têm força, pululam os demagogos, e o povo torna-se tirano" (...).

Não pode ser considerada igualitária uma sociedade em que não foram atingidos os objetivos do milênio (ONU). Não pode haver igualdade enquanto não formos capazes de: I - erradicar a fome e a miséria; II - prover educação básica e de qualidade para todos, por meio do acesso e da inclusão; III - promover a igualdade entre os sexos e valorização da mulher; IV - reduzir a mortalidade infantil; V - melhorar a saúde das gestantes; VI - combater a AIDS, a malária e outras doenças; VII - garantir a qualidade de vida e o respeito ao meio ambiente; VIII - prover condições de que todo mundo trabalhe pelo desenvolvimento; (...).

Winston Churchill era primeiro ministro da Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial. Na Conferência de Teerã, famosa reunião de líderes aliados para decidir o que fazer para tentar conter o avanço das tropas do Eixo, em 28 de novembro de 1943, Stalin e Roosevelt mostravam certo pessimismo. Churchill, em dado momento, levantou-se e caminhou na direção de u m tanque de peixes que havia ali perto, segurando uma xícara de chá, vazia. Mergulhou a xícara e se pôs a derramar água para fora do tanque. Os participantes da reunião pararam de falar para observar o que ele fazia. E acabaram perguntando o que pretendia. Ele respondeu: "Vou esvaziar o tanque." Alguém indagou, atônito: "Mas, com uma xícara?" Churchill, sem interromper o que fazia, respondeu: "É a arma que tenho. Sei que é pouco, mas tenho persistência."Nós, que somos cidadãos persistentes e conscientes, vamos fazer a nossa parte.

Prosseguiremos nossa jornada em 2010, em Salvador, na Segunda Bienal Nacional de Direitos Humanos..." Considerando o que foi debatido em setembro e a superveniência da crise financeira internacional, projetando suas repercussões catastróficas aos países pobres, somos forçados a admitir que as previsões de Maltus não são tão absurdas...

* Presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas.

 
A grave ameaça da
majoração de insumos

* Por Merheg Cachum

Na presente conjuntura econômica mundial, é imprescindível prudência na análise das perspectivas de todos os mercados. No Brasil, é presumível uma redução, mesmo que amena, no nível de atividade, à medida que a dificuldade de crédito for tendo impacto nos investimentos das empresas e consumo por parte da população. Obviamente, são positivas as medidas adotadas pelo governo quanto à flexibilização dos depósitos compulsórios no Banco Central, numa tentativa de irrigar o crédito e manter a economia aquecida. Lamentável, por outro lado, a demora do ingresso desses recursos no mercado.

Nesse cenário, são muito inadequadas e nocivas quaisquer tentativas de aumento de preços, como se observa nas indústrias de resinas termoplásticas. Seria falta de bom senso majorar esse importante insumo em meio a uma das mais graves crises financeiras da humanidade e no contexto de uma curva cada vez mais acentuada de queda dos preços do petróleo, do qual deriva aquela matéria-prima.

A hora é para que todos os agentes da economia real mobilizem-se, por exemplo, no sentido de que o dinheiro dos depósitos compulsórios liberados pelo governo chegue ao chão de fábrica, ao comércio, ao financiamento de bens de capital e produtos de consumo. Falar em aumento de preços é tão passível de crítica quanto a utilização daqueles recursos para outras finalidades que não a manutenção do crédito vivo.

Mais grave ainda essa manifesta intenção das petroquímicas de majorar as resinas, se considerarmos o histórico recente do mercado. O preço do insumo já havia subido, em média, 30% em 2007 e sofreu mais reajustes este ano. Novos aumentos, além de inadequados à previsibilidade próxima da demanda, não se justificam pelo aumento do valor do dólar ante o real. A queda dos preços do petróleo (em percentual muito superior ao da recente flutuação cambial) já tornaria totalmente desnecessário qualquer reajuste das resinas, mesmo se não tivesse ocorrido o desastroso crash do subprime. Com crise, então, falar em aumento de preço é uma confissão de insanidade...

Um novo reajuste teria impacto muito pesado no setor de transformação do plástico, que fornece componentes para a grande maioria dos ramos industriais. Portanto, um eventual repasse dessa majoração poderia ter sensível impacto inflacionário. E isto é tudo o que o Brasil não precisa neste momento de luta para mitigar aqui os efeitos de uma crise nascida nas hipotecas imobiliárias dos Estados Unidos e disseminada pelos incontroláveis meios da globalização.

O setor de transformação do plástico, que emprega mais de 300 mil trabalhadores no Brasil, já tem enfrentado desequilíbrios em decorrência dos sucessivos aumentos de preços das resinas no mercado interno, muito acima do praticado no exterior. Um novo reajuste seria um convite ao pessimismo dos brasileiros, levando-se em conta o impacto direto do material plástico em numerosos segmentos da indústria.

* Presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).
 

Esperança contra a catarata

* Por Marco Canto

Com o aumento da expectativa de vida é comum a maior incidência de algumas doenças próprias da terceira idade, sendo uma delas a catarata. Essa doença é um processo de opacificação do cristalino, que é a lente natural do olho responsável pela focalização da imagem na retina, que representa, por assim dizer, o filme onde a imagem é captada.

Apesar de surgir quase sempre na terceira idade, devido ao envelhecimento natural, em algumas pessoas a catarata pode se manifestar precocemente. A doença pode afetar um ou os dois olhos ao mesmo tempo e também é causada por outros fatores como a diabetes, rubéola, tuberculose, toxoplasmose, traumas e uso excessivo de alguns medicamentos. A catarata pode ainda ter causa congênita e estar presente desde o nascimento.

No estágio inicial da doença, o paciente percebe apenas uma pequena turvação, embaçamento e desconforto, que aumenta progressivamente, impedindo a nítida visualização dos objetos e letras, chegando à obstrução total da visão. Existe um tipo de catarata, chamada de catarata madura, que caracteriza o estágio em que a doença restringe até a mesmo a percepção luminosa. Mas hoje esta modalidade é rara, embora ainda apareçam no consultório pessoas cegas por causa da doença.
Como não existe prevenção, o único tratamento é a cirurgia. Hoje, a cirurgia da catarata é a mais realizada no mundo e leva apenas alguns minutos. O paciente recebe anestesia local ou tópica, apenas com colírios anestésicos. Depois disso, por uma técnica chamada facoemulsificação, é removida toda a opacificação do cristalino e implantada uma lente artificial para substituir a lente natural do olho. A pessoa é liberada para casa no mesmo dia da cirurgia, algumas horas depois do procedimento. Na maioria das vezes, o paciente tem alguma dificuldade visual no momento, por causa dos efeitos residuais da anestesia, mas em dois dias a melhora visual é notada e a pessoa está pronta, e até ansiosa, para operar o outro olho, quando necessário.

Embora a cirurgia de catarata seja eficaz, segura e o único tratamento disponível para a doença, alguns fatores são essenciais para o sucesso da cirurgia. É necessário que haja uma boa relação entre médico e paciente; deve ser realizada uma boa avaliação pré-operatória; a indicação cirúrgica deve ser adequada; a lente que será implantada deve ter sido calculada corretamente bem como se de qualidade; o paciente deve seguir as orientações do pré e pós-operatório e deve-se dispor de um local adequado para o procedimento. Com o apoio desses fatores, o cirurgião que tiver habilidade e experiência estará apto a realizar o procedimento com sucesso.

* Oftalmologista, diretor da Clínica Canto de Oftalmologia.

 
Peço desculpas

*Por Frei Betto

Estou gravemente enfermo. Gostaria de manifestar publicamente minhas escusas a todos que confiaram cegamente em mim. Acreditaram em meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram em minhas mãos o fruto de anos de trabalho, as economias familiares, o capital de seus empreendimentos.Peço desculpas a quem assiste às suas economias evaporarem pelas chaminés virtuais das Bolsas de Valores, bem como àqueles que se encontram asfixiados pela inadimplência, os juros altos, a escassez de crédito, a proximidade da recessão.

Sei que nas últimas décadas extrapolei meus próprios limites. Arvorei-me em rei Midas, criei em torno de mim uma legião de devotos, como se eu tivesse poderes divinos. Meus apóstolos - os economistas neoliberais - saíram pelo mundo a apregoar que a saúde financeira dos países estaria tanto melhor quanto mais eles se ajoelhassem a meus pés. Fiz governos e opinião pública acreditarem que o meu êxito seria proporcional à minha liberdade. Desatei-me das amarras da produção e do Estado, das leis e da moralidade.

Reduzi todos os valores ao cassino global das Bolsas, transformei o crédito em produto de consumo, convenci parcela significativa da humanidade de que eu seria capaz de operar o milagre de fazer brotar dinheiro do próprio dinheiro, sem o lastro de bens e serviços.Abracei a fé de que, frente às turbulências, eu seria capaz de me auto-regular, como ocorria à natureza antes de ter seu equilíbrio afetado pela ação predatória da chamada civilização.

Tornei-me onipotente, supus-me onisciente, impus-me ao planeta como onipresente. Globalizei-me. Passei a jamais fechar os olhos. Se a Bolsa de Tóquio silenciava à noite, lá estava eu eufórico na de São Paulo; se a de Nova York encerrava em baixa, eu me recompensava com a alta de Londres. Meu pregão em Wall Street fez de sua abertura uma liturgia televisionada para todo o orbe terrestre. Transformei-me na cornucópia de cuja boca muitos acreditavam que haveria sempre de jorrar riqueza fácil, imediata, abundante. Peço desculpas por ter enganado a tantos em tão pouco tempo; em especial aos economistas que muito se esforçaram para tentar imunizar-me das influências do Estado. Sei que, agora, suas teorias derretem como suas ações, e que o estado de depressão em que vivem se compara ao dos bancos e das grandes empresas.Peço desculpas por induzir multidões a acolher, como santificadas, as palavras de meu sumo pontífice Alan Greenspan, que ocupou a sé financeira durante dezenove anos.

Admito ter ele incorrido no pecado mortal de manter os juros baixos, inferiores ao índice da inflação, por longo período.

Assim, estimulou milhões de usamericanos à busca de realizarem o sonho da casa própria. Obtiveram créditos, compraram imóveis e, devido ao aumento da demanda, elevei os preços e pressionei a inflação.

Para contê-la, o governo subiu os juros… e a inadimplência se multiplicou como uma peste, minando a suposta solidez do sistema bancário.Sofri um colapso. Os paradigmas que me sustentavam foram engolidos pela imprevisibilidade do buraco negro da falta de crédito. A fonte secou.

Com as sandálias da humildade nos pés, rogo ao Estado que me proteja de uma morte vergonhosa. Não posso suportar a idéia de que eu, e não uma revolução de esquerda, sou o único responsável pela progressiva estatização do sistema financeiro.

Não posso imaginar-me tutelado pelos governos, como nos países socialistas. Logo agora que os Bancos Centrais, uma instituição pública, ganhavam autonomia em relação aos governos que os criaram e tomavam assento na ceia de meus cardeais, o que vejo? Desmorona toda a cantilena de que fora de mim não há salvação.

Peço desculpas antecipadas pela quebradeira que se desencadeará neste mundo globalizado. Adeus ao crédito consignado!

Os juros subirão na proporção da insegurança generalizada. Fechadas as torneiras do crédito, o consumidor se armará de cautelas e as empresas padecerão a sede de capital; obrigadas a reduzir a produção, farão o mesmo com o número de trabalhadores.

Países exportadores, como o Brasil, verão menos clientes do outro lado do balcão; portanto, trarão menos dinheiro para dentro de seu caixa e terão que repensar suas políticas econômicas.Peço desculpas aos contribuintes dos países ricos que vêem seus impostos servirem de bóia de salvamento de bancos e financeiras, fortuna que deveria ser aplicada em direitos sociais, preservação ambiental e cultura.

Eu, o mercado, peço desculpas por haver cometido tantos pecados e, agora, transferir a vocês o ônus da penitência.

Sei que sou cínico, perverso, ganancioso. Só me resta suplicar para que o Estado tenha piedade de mim. Não ouso pedir perdão a Deus, cujo lugar almejei ocupar. Suponho que, a esta hora, Ele me olha lá de cima com aquele mesmo sorriso irônico com que presenciou a derrocada da torre de Babel.

* Escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.
 
Quando quem compra é a classe C

* Por Gilberto Guimarães

A classe C, hoje, já corresponde a 46% da população. São 86 milhões de pessoas com renda familiar média de três salários mínimos que, finalmente, entraram no paraíso do consumo e já representam o grande consumidor.

Agora é a hora de descobrir o que isto vai provocar de mudanças no mercado, nas empresas e, sobretudo, na carreira dos executivos. Como será criar, planejar, produzir e vender para esta população? Quem entende de classe C? Quem conhece essas pessoas? Até hoje, as escolas de administração, os livros, os cases , sempre trataram das grandes marcas, do glamour, do luxo, do status e do reconhecimento. Fomos todos formados para trabalhar em empresas conhecidas e reconhecidas, local e mundialmente. Aprendemos a criar, produzir e vender uma Brastemp, não um tanquinho; um carro do ano, não a velha Brasília amarela; um Lancôme, um Vuitton, tudo o que representa o sonho de consumo das classes A e B. Mas, o que sonha a classe C? A, B ou C, seres humanos, consomem para atender anseios e necessidades. A diferença entre eles é que, quem tem muito, e pode, consome para ser diferente, compra o novo, o único. Pode arriscar. Quem tem pouco, ou não tem nada, compra para ser igual, para ter o que todo mundo tem. Compra o conhecido e garantido. Não arrisca, não pode errar. Isto vale de P a P, de Pasta de dente a Presidente. Quem tem pouco é conservador, por necessidade e insegurança.

O certo é que as empresas, e os empresários, que conseguiram criar e vender produtos para a classe C, aprenderam na vida e não na escola. Não são estrelas glamourizadas, não participam de premiações nem de eventos importantes. No entanto, como empresários, tiveram um tremendo sucesso. É interessante também perceber que, normalmente essas empresas, e esses empresários, montam suas equipes recrutando e promovendo dentro de si próprias, com seus velhos e fiéis colaboradores, que normalmente foram formados no modelo do dono empreendedor. E cada vez que uma dessas empresas tenta trazer um mauricinho ou uma patricinha , cheios de títulos e empáfias, promove um choque cultural que acaba em fracasso e na expulsão desse intruso.

Agora, o mundo mudou. O fenômeno brasileiro da classe C é o mesmo fenômeno chinês, o mesmo indiano e russo. O grande consumidor mundial são os emergentes, aqueles que tinham pouco. Agora, as escolas estão obrigadas a mexer na sua grade curricular. Novos livros, novos temas e novos professores. Novos textos e cases têm de ser criados. Ainda existe muito pouca literatura sobre como produzir, vender e agradar a um consumidor classe C.

A velha máxima de Joãozinho Trinta pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectualR21; R11; é muito mais engraçada do que verdadeira. Vale para carnaval, mas não vale para o mundo empresarial. Este mundo classe C sempre existiu, mas estava separado do mercado de consumo pelo muro da pobreza. Consumia migalhas e restos. Não era importante. Agora, ele passou a ser o motor do futuro. Estes novos tempos exigem novos conhecimentos, novas competências e novas lideranças. Quem não descobrir os caminhos e não se adaptar rapidamente vai ficar fora da foto.

 
Dê a vida por suas ovelhas

* Por Monsenhor Jonas Abib

Quando dizemos para você dar a vida por suas ovelhas, claro que se trata de uma metáfora. A ovelha, neste caso, são aquelas pessoas que dependem de você e dos seus cuidados. A ovelhinha não sabe distinguir uma planta boa de uma ruim, e não sabe voltar para casa até mesmo quando é deixada ao lado dela. Sua visão não mostra com amplitude a realidade. Já o cachorro é diferente. Ele tem instinto e sabe voltar para casa se é deixado longe. Por isso Deus nos comparou às ovelhas.

"Que vos parece? Se um homem possui cem ovelhas e uma delas se extravia, não deixa ele as noventa e nove nos montes e vai à procura da extraviada? Se consegue achá-la, em verdade vos digo, terá maior alegria com ela do que com as noventa e nove que não se extraviaram. Assim também, não é da vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca" (Mateus 18, 12-14).

O papa João Paulo II também recordou de um episódio do evangelho de João (10, 11) em sua Homilia às Clarissas de Albano: "O verdadeiro pastor sai em busca da ovelha desgarrada sem se descuidar das noventa e nove (...). O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas".

Também Santo Agostinho dizia: "No homem que erra é preciso repreender unicamente o erro. O homem, como tal, devemos sempre amá-lo. A condenação nunca deve ser vingativa e cruel, porém, temperada pelo sentido da justiça. Se assim não se agisse, a condenação seria mais nociva para o errante do que a sua própria culpa". Reflitam profundamente o sentido dessas palavras, irmãos, e vamos dar a vidas por nossas ovelhas.

 
O que as empresas
querem e do que elas precisam

* Por Rodrigo Oliveira

Toda ação ergonômica deve ser pautada pelo planejamento, essa é a palavra de ordem do ergonomista que quer oferecer o melhor para seu cliente. Entretanto, em muitas situações, o tempo de estruturação não é seguido a contento e isso gera frustrações em relação trabalho realizado, principalmente, por não resolver às situações ergonômicas a que se destinava.

Para atingir ao seu objetivo, uma ação ergonômica deve ser abordada de forma moderna e eficiente, partindo, inicialmente, de uma demanda. Apesar de parecer algo simples, o estabelecimento dessa demanda nem sempre é fácil e, muitas vezes, as empresas solicitam a intervenção profissional sem que ao menos haja um objetivo claro em mente.

A demanda empresarial pode ser de três aspectos diferentes: trabalhista, de certificação e de modernização. A primeira está relacionada com à Norma Regulamentadora 17 e, em geral, o que se espera do profissional é o cumprimento da legislação. As empresas tendem a pedir ajuda com essa demanda em função de níveis elevados de absenteísmo, perda de produtividade, acidentes de trabalho, queixa dos trabalhadores, entre outros fatores pontuais.

Quando identificada que a demanda da empresa é trabalhista, é comum a solicitação de uma Análise Ergonômica do Trabalho (AET) de toda a empresa ou, pelo menos, das áreas consideradas críticas. E o trabalho passa a ser pautado sobre essa análise a fim de adequar as situações ergonômicas à legislação vigente.

Quando a demanda é por certificação de produtos e processo, a AET também é realizada, pois é uma forma de verificar quais são as mudanças necessárias para conformidade com as normas em questão. Entre as certificações estão as ISO 9000 e OHSAS 18001.

Em uma perspectiva de modernização, a empresa busca fazer a coisa certa desde o início, ou seja, preocupa-se com o incremento da produtividade, mas tenta controlar variáveis e constrangimentos que podem surgir aos sistemas e indivíduos.

Conhecer a empresa, de maneira geral no início e em detalhes posteriormente, é fundamental para a formulação de uma ação ergonômica adequada. Para isso, as visitas são extremamente necessárias e ajudam o profissional a estabelecer a demanda daquele cliente especificamente.

Com a idéia do que a empresa precisa, o ergonomista agirá então como estrategista, alinhando os anseios do cliente – demanda inicial – com a demanda real, formulando hipóteses e estabelecendo, então, as ações ergonômicas pertinentes. Seja qual for a demanda, o profissional precisa estar capacitado para oferecer o necessário para que a empresa cresça e alcance seus objetivos.

* Especialista em Fisioterapia Traumato/ortopédica e Osteopatia pelo CBES, especializando do curso de Ergonomia pela UFPR

 
Como se afastar das drogas

* Por J.Antonio Sespedes

Muito se fala sobre as drogas e do combate a elas, igualmente daqueles que se tornaram dependentes e das conseqüências nocivas a eles e à sociedade. Mas, não nos prenderemos aos efeitos, iremos diretamente às causas que levam uma criatura a buscar nas drogas o êxtase de um paraíso irreal ou uma fuga para seus conflitos íntimos.

Foi comprovado que os motivos que corroem a mente das pessoas independente de idade, sexo ou classe social, são ensejos considerados banais e até infantis quando analisados com mais profundidade. Assim sendo, os desajustes familiares, os complexos, a timidez, os medos e as fantasias, incluindo as de ordem sexuais, borbulham no cérebro do indivíduo o levando à exaustão. E é justamente este o ponto crucial! A bifurcação que aponta a rota de fuga aos que passam por esta sombria experiência. Rompe-se o elo entre o mundo real e o fictício, o “alivio” ou a euforia momentânea criam uma falsa sensação de liberdade para quem envolto em correntes, acredita poder voar. É preciso também considerar que, ao findar o efeito da droga, tudo muda para pior, pois o desertor encontra a “casa” lesionada. E desse jeito, os artifícios químicos vão destruindo quem a eles recorre. Aos que passam por tratamento de desintoxicação é preciso paralelamente abrir o arquivo mental até localizar o início de tudo e descobrir as causas, isto é, voltar no passado e refletir profundamente sobre as situações e as atitudes tomadas a partir delas, quando o entendimento sobre a vida era restrito, e que no decorrer do tempo se ampliou, possibilitando o resgate de si mesmo. Os que conseguem, experimentam o sabor da conquista, reservado aos autênticos guerreiros que, em silêncio protagonizam grandes batalhas.

Ao invés de escapar pelo atalho dos alucinógenos, é preciso enfrentar a situação e ter força de vontade e dar ouvidos aos que podem ajudar. A insegurança, os questionamentos e as dúvidas, nada mais são que, um convite à busca e a expansão de limites provisórios.

* Autor do livro: Depressão,um beco com saída

 
Peço desculpas

*Por Frei Betto

Estou gravemente enfermo. Gostaria de manifestar publicamente minhas escusas a todos que confiaram cegamente em mim. Acreditaram em meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram em minhas mãos o fruto de anos de trabalho, as economias familiares, o capital de seus empreendimentos.Peço desculpas a quem assiste às suas economias evaporarem pelas chaminés virtuais das Bolsas de Valores, bem como àqueles que se encontram asfixiados pela inadimplência, os juros altos, a escassez de crédito, a proximidade da recessão.

Sei que nas últimas décadas extrapolei meus próprios limites. Arvorei-me em rei Midas, criei em torno de mim uma legião de devotos, como se eu tivesse poderes divinos. Meus apóstolos - os economistas neoliberais - saíram pelo mundo a apregoar que a saúde financeira dos países estaria tanto melhor quanto mais eles se ajoelhassem a meus pés. Fiz governos e opinião pública acreditarem que o meu êxito seria proporcional à minha liberdade. Desatei-me das amarras da produção e do Estado, das leis e da moralidade.

Reduzi todos os valores ao cassino global das Bolsas, transformei o crédito em produto de consumo, convenci parcela significativa da humanidade de que eu seria capaz de operar o milagre de fazer brotar dinheiro do próprio dinheiro, sem o lastro de bens e serviços.Abracei a fé de que, frente às turbulências, eu seria capaz de me auto-regular, como ocorria à natureza antes de ter seu equilíbrio afetado pela ação predatória da chamada civilização.

Tornei-me onipotente, supus-me onisciente, impus-me ao planeta como onipresente. Globalizei-me. Passei a jamais fechar os olhos. Se a Bolsa de Tóquio silenciava à noite, lá estava eu eufórico na de São Paulo; se a de Nova York encerrava em baixa, eu me recompensava com a alta de Londres. Meu pregão em Wall Street fez de sua abertura uma liturgia televisionada para todo o orbe terrestre. Transformei-me na cornucópia de cuja boca muitos acreditavam que haveria sempre de jorrar riqueza fácil, imediata, abundante. Peço desculpas por ter enganado a tantos em tão pouco tempo; em especial aos economistas que muito se esforçaram para tentar imunizar-me das influências do Estado. Sei que, agora, suas teorias derretem como suas ações, e que o estado de depressão em que vivem se compara ao dos bancos e das grandes empresas.Peço desculpas por induzir multidões a acolher, como santificadas, as palavras de meu sumo pontífice Alan Greenspan, que ocupou a sé financeira durante dezenove anos.

Admito ter ele incorrido no pecado mortal de manter os juros baixos, inferiores ao índice da inflação, por longo período.

Assim, estimulou milhões de usamericanos à busca de realizarem o sonho da casa própria. Obtiveram créditos, compraram imóveis e, devido ao aumento da demanda, elevei os preços e pressionei a inflação.

Para contê-la, o governo subiu os juros… e a inadimplência se multiplicou como uma peste, minando a suposta solidez do sistema bancário.Sofri um colapso. Os paradigmas que me sustentavam foram engolidos pela imprevisibilidade do buraco negro da falta de crédito. A fonte secou.

Com as sandálias da humildade nos pés, rogo ao Estado que me proteja de uma morte vergonhosa. Não posso suportar a idéia de que eu, e não uma revolução de esquerda, sou o único responsável pela progressiva estatização do sistema financeiro.

Não posso imaginar-me tutelado pelos governos, como nos países socialistas. Logo agora que os Bancos Centrais, uma instituição pública, ganhavam autonomia em relação aos governos que os criaram e tomavam assento na ceia de meus cardeais, o que vejo? Desmorona toda a cantilena de que fora de mim não há salvação.

Peço desculpas antecipadas pela quebradeira que se desencadeará neste mundo globalizado. Adeus ao crédito consignado!

Os juros subirão na proporção da insegurança generalizada. Fechadas as torneiras do crédito, o consumidor se armará de cautelas e as empresas padecerão a sede de capital; obrigadas a reduzir a produção, farão o mesmo com o número de trabalhadores.

Países exportadores, como o Brasil, verão menos clientes do outro lado do balcão; portanto, trarão menos dinheiro para dentro de seu caixa e terão que repensar suas políticas econômicas.Peço desculpas aos contribuintes dos países ricos que vêem seus impostos servirem de bóia de salvamento de bancos e financeiras, fortuna que deveria ser aplicada em direitos sociais, preservação ambiental e cultura.

Eu, o mercado, peço desculpas por haver cometido tantos pecados e, agora, transferir a vocês o ônus da penitência.

Sei que sou cínico, perverso, ganancioso. Só me resta suplicar para que o Estado tenha piedade de mim. Não ouso pedir perdão a Deus, cujo lugar almejei ocupar. Suponho que, a esta hora, Ele me olha lá de cima com aquele mesmo sorriso irônico com que presenciou a derrocada da torre de Babel.

* Escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.

 
Responsabilidade compartilhada na
democratização do ensino superior

* Por Custódio Pereira

São preocupantes os dados revelados pelo primeiro Mapa de Estudos Superiores na América Latina e no Caribe (Mesalc), produzido e recentemente divulgado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O pioneiro estudo diagnostica a persistência de profundos contrastes e desigualdades. O Brasil é protagonista de alguns dos paradoxos constatados: registra a porcentagem mais elevada de analfabetos dentre todos os países da região, mas, em contrapartida, é o que mais diploma pessoas na universidade. Na pós-graduação, forma onze mil estudantes com grau de doutorado por ano.

Na área abrangida pelo relatório, há cerca de nove mil centros de ensino superior, mas somente 13,8% das universidades têm sistema de avaliação capaz de garantir a qualidade do ensino ministrado. A tabulação dos resultados suscitou a preocupação de Ana Lúcia Gazzola, diretora do Instituto Internacional da Unesco para a Educação Superior na América Latina e no Caribe (Iesalc), responsável pela realização do estudo. Segundo ela, o sistema é muito desequilibrado no Continente.

O trabalho baseou-se em informações consistentes e numa área abrangente. Reuniu dados e estatísticas de 28 dos 33 países membros da Unesco na região. Dentre os seus diagnósticos, destacam-se os seguintes: a necessidade de aumento da capacidade de acesso à educação superior e da taxa de cobertura (relação entre as matrículas no ensino superior e a população entre 18 e 24 anos); melhoria da qualidade da educação superior; necessidade de ampliação dos sistemas de acreditação e avaliação do ensino universitário; aumento da produção científica e disseminação da produção em diversos países.

Uma das conclusões que mais preocupam é que apenas 24% da população com idade para freqüentar o ensino superior estão efetivamente matriculados. Na Ásia e Europa, o índice alcança, respectivamente, 68% e 87%. A diferença é muito grande e pode estabelecer desvantagens competitivas graves, considerando o significado do ensino superior para a soberania tecnológica e a capacidade de pesquisa e inovação das nações, em especial na América Latina e no Caribe, onde as universidades contribuem com 85% a 90% da produção do conhecimento. No Brasil, 89% das pesquisas são feitos nos cursos de pós-graduação. O restante fica a cargo do setor privado ou é absorvido pelo governo.

Assim, é muito preocupante o dado revelado pelo relatório quanto a uma questão crucial para o desenvolvimento do ensino superior: o financiamento. Pois bem, a porcentagem do Produto Interno Bruto latino-americano aplicada na educação é insuficiente. O Brasil, por exemplo, desembolsa apenas 0,9% do PIB com pesquisa e inovação. Estatísticas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que congrega os países mais ricos, mostram que, em relação à sua região, o Brasil está bem posicionado. No entanto, quando a comparação é feita com as nações signatárias desse organismo e até com outros emergentes, o desempenho nacional é fraco.

Esse quadro torna premente o advento, no Brasil e em toda a América Latina e o Caribe, de uma cultura de doações de recursos às instituições de ensino, tanto por ex-alunos como pela sociedade em geral. Trata-se do engajamento mais amplo e efetivo da Nação numa causa verdadeiramente condicionante de sua capacidade de resgatar a dívida social, manter o ritmo de crescimento econômico e ingressar no universo dos países do Primeiro Mundo. O inquestionável laboratório da história já demonstrou